Desde que minha filha nasceu, em 2023, me sinto em um processo de mudança acelerada. O nascimento da minha baixinha parece que veio para evidenciar uma verdade minha que sempre tentei negar desde os meus dezoito anos: uma falta constante de energia.
Quando fui atrás do meu diagnóstico de Autismo em 2020, achei que o simples fato de saber o nome do meu conjunto de sintomas seria o suficiente para me ajudar e, por três anos, realmente foi. Com meus diagnósticos e devidamente tratada e amparada pelos profissionais corretos, me achei pronta para colocar no mundo meu bebezinho.
Uma mãe nunca sabe o quão difícil é ser mãe. Pelos três anos seguintes as demandas de ser mãe voltaram a evidenciar aquela velha reclamação: falta de energia. Mas, diferente de três anos atrás, todos os movimentos que eu tomava resultavam em fracasso: mais falta de energia. Tentei absolutamente tudo que eu conseguia pensar para restaurar os recursos mentais que eu não conseguia ter… Até que, por fim, cheguei ao burnout.
Não vou dizer que já me recuperei, porque isso seria mascarar a verdade e a profundidade do meu burnout. Estou no processo de entender o que rouba minha vitalidade e o que a recarrega. E é engraçado, mas parece que somente seis anos depois do meu diagnóstico é que realmente entendi o que é ser Autista com Altas Habilidades. Ou talvez, somente depois desses seis anos que consegui aceitar completamente o que isso significa.
Na verdade, me sinto hoje em um momento de ruptura. Ruptura da única parte da minha personalidade que eu achei que eu nunca deveria mudar: a minha parte “de boa”. A minha parte fácil de lidar, a parte de mim que sempre queria agradar, a parte de mim que queria se encaixar e ser a pessoa que os outros esperavam que eu fosse.
No começo, tive que entrar em paz com a ideia de que eu precisava ser a vilã da vida dos outros para poder me proteger e conservar meu combustível interno para gastar com o que realmente me importa. Agora, algum tempo depois de ter virado essa chave, começo a pensar que talvez, ser uma pessoa que define seus próprios limites e os respeita, não seja algo tão ruim assim.
Mas não vou negar que esse processo está sendo difícil. Romper enfim com a ingenuidade de uma mente autista é um pouco deprimente. É perceber como todo mundo ao seu redor é falho e nem todos estão abertos a entender o mundo dos outros. É defender as coisas que você acredita e finalmente entender que para alguns, as suas crenças são ameaças.
No fim, é entender que a maioria das pessoas está ocupada demais lidando com os próprios abismos para conseguir decifrar o outro. E que a errada era eu, por esperar que alguém enxergasse além do meu sorriso forçado. São realizações muito tristes, muito necessárias e até certo ponto, libertadoras.
Quando você coloca o pé no chão e traça o seu limite, uma coisa interessante acontece: as pessoas que realmente se importam com você e querem você na vida delas decidem fazer o possível para responder às suas necessidades. É assim que você descobre com quem vale a pena gastar a pequena energia que você tem.
Uma parte de mim poderia ficar triste ao perceber que essas pessoas são poucas, mas prefiro pensar que agora vou conseguir canalizar esse recurso vital que restou para o único lugar onde sempre fui livre, mas nunca tive coragem de habitar completamente: a minha escrita.
Eu gostaria de dizer que a partir de agora vou ter mais consistência com a minha escrita e que vou começar a divulgar meus conteúdos, mas recebi algumas notícias que não vão me deixar fazer isso. A verdade é que meu burnout não é só psicológico. Agora meu burnout também é biológico: meu corpo entrando em colapso por tentar manter uma mente como a minha funcionando. Os resultados dos meus exames só evidenciam mais ainda tudo que falei aqui e qual é o verdadeiro movimento que eu preciso fazer: descansar.
Então, ao contrário do que eu realmente gostaria, aqui está a minha promessa de aprender a descansar e respeitar meu corpo e, com o tempo, aprender a desmascarar minhas dificuldades e resignificar minha própria identidade. Da próxima vez que eu aparecer online, espero que seja para ficar.
Me desejem sorte.