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Mulher, aqui está minha maldição – você perderá sua magia e sua beleza, para que assim, não enfeitice mais nenhum homem. E se, apesar de sua repugnância, o seu amor ainda for correspondido, uma doença fatal possuirá todos os seus amados e eles perecerão a seus pés. Esse será seu destino, enquanto minhas palavras soarem em seus ouvidos.
Júlia acordou com aquelas palavras ecoando em sua mente. Todas as noites ela sonhava a mesma coisa. Todos os dias ela ouvia aquelas palavras, e ela sabia que a maldição ainda perdurava.
Morava sozinha no cubículo que ela chamava de apartamento. Era uma suíte ligada a uma cozinha-sala. Não que ela realmente se importasse com o tamanho ou beleza do lugar. Ele servia ao seu propósito muito bem.
Ao perceber que a dona estava em pé, sua gata preta não hesitou em lhe pular no colo para pedir algumas esfregadas. Júlia sorriu, coçando-lhe o queixo com carinho, para depois se levantar da cama pequena para começar um novo dia.
Olhou para o espelho da penteadeira e sorriu. Seus olhos verdes vivos miraram seus cabelos castanhos, vistosos e cacheados e sua pele lisa e macia. Bom dia, Quira. Ela se deliciava com a verdadeira aparência. Seus lábios eram naturalmente rubros e cheios e seu queixo pontudo completava a feição feminina. Ela suspirou de saudade.
Com um olhar triste, levantou-se para se vestir e fazer o café da manhã. Na pequena cozinha, a geladeira velha enchia o ar com um zumbido levemente irritante. Os armários de parede tinham as portas levemente tortas, a madeira escura e lascada. Era tudo que Júlia podia pagar com seu salário atual. Quira odiava tudo aquilo — sentia falta dos castelos, dos banquetes e da magia.
Mirou-se na porta espelhada da geladeira por apenas um segundo. Ao ver a forma que todos viam — pele manchada e vermelha, lábios rachados e cabelos de vassoura de palha — desviou o olhar. Abriu a porta para acabar com o reflexo e pegar seu café da manhã: pão, queijo e mortadela. Para a gata, colocou um pote com ração.
Ela ouviu o miado reclamado de sua companheira.
— Eu sei Kanna, eu sei. Logo vamos poder ter coisas melhores. Mas você tem que esperar. Tenho que me formar primeiro, conseguir um bom emprego. — Ela suspirou — Algumas vezes, eu só odeio esse século…. Ah, se os tempos não mudassem tanto em tão pouco tempo…
***
— Vamos Júlia! Festa a fantasia! Você vai se divertir, eu garanto. — Ela ouviu o garoto pedir pela terceira vez só naquela semana. Ela mirou Gabriel com olhos sérios. Não conseguia entender como haviam virado amigos. Gabriel não tinha perfil para falar com ela. Era bonito, de olhos escuros, cabelos castanhos e um físico bem cuidado. Não havia exatamente nenhum motivo para eles se falarem. Talvez se ela fosse Quira, isso teria feito mais sentido — mas ela era Quira… Já não era há muito tempo. Ela estranhou o pedido constante, mas finalmente concedeu.
— Tudo bem, Gabriel, tudo bem. Mas eu não tenho o que vestir e muito menos dinheiro para alugar alguma coisa, entendeu? Se eu for, vou assim.
— Ah, mas não vai mesmo. Vai me deixar fazer esse favor, não vai? Vamos juntos escolher uma fantasia para você, e eu pago.
Por algum motivo, Júlia não conseguiu dizer não. Ela via naquele simples convite, uma possibilidade de diversão que ela nunca havia experimentado. Pelo menos, não naquele século. Talvez Quira estivesse querendo sair, – se sentir viva por um momento. Mas não importava, já que até Júlia pensava que elas mereciam se divertir com um amigo.
Ela sentiu uma leve pontada no estômago. Lembrou-se do sonho. Sentiu um leve temor de poder estar sentindo mais do que amizade. Mas, pelo menos, era impossível que Gabriel lhe correspondesse, não é mesmo?
O rapaz se mostrou realmente compreensivo ao ajudá-la com as roupas. Não pediu para vê-la vestida. Não se intrometeu com suas escolhas. Fazia algumas sugestões. Ria das dela. Que tal me fantasiar de fantasma?
Em nenhum lugar, nos olhos de Gabriel, ela conseguiu ver aquele brilho a mais. Em nenhum lugar ela viu aquela vontade de tocá-la. Ela deveria estar aliviada…. Mas, por algum motivo, aquilo só a fazia se sentir mais triste. Secretamente, ela queria que aquele brilho estivesse lá — ao mesmo tempo que implorava para que não.
E com esse pensamento, ela viu o mais lindo vestido negro na vitrine de uma loja esotérica. Seus olhos verdes brilharam em reconhecimento. Justo aquele vestido estava ali, para ela ver. Sua intuição disparou. Algumas engrenagens do destino estavam se movendo? Ou talvez só queria acreditar que estavam se movendo? Mas Quira, Quira se lembrava – do vestido, do momento, da maldição. Júlia só queria esquecer que aquilo algum dia aconteceu.
— Júlia, por acaso você quer esse vestido? — Gabriel de repente lhe perguntou, um sentimento irreconhecível na voz. Ele nunca havia visto a amiga daquele jeito – uma espécie de nostalgia nos olhos marejados, a mente a quilômetros de distância.
— Quero… — Ela respondeu sem pensar, colocando a mão no vidro da vitrine, precisando alcançá-lo e tocá-lo.
Um pequeno desejo começou a se apossar dela — Quira começou a se inflamar dentro de Júlia. Ela queria voltar a ser ela mesma. Ela queria sua aparência de volta, ela queria se sentir linda de volta. Ela queria voltar a ser aquela pessoa que havia usado aquele vestido séculos atrás… Mas ela estava fadada a ser somente Júlia para sempre.
Gabriel a deixou em casa, com promessas de buscá-la em algumas horas para o baile. Ela já não pensava mais nas mesmas coisas, ela só estava melancólica. As lembranças vinham como ondas, ondas que subiam e lhe encharcavam os olhos.
Apertou o vestido entre os braços e entrou desamparada dentro de casa. Kanna, sua gata preta, veio lhe saudar com um esfregão nas pernas. Diferente dos outros dias, Júlia não a afagou. Entrou direto em seu quarto e colocou o tão amado vestido.
Ela não quis olhar para os espelhos normais, que mostrariam sua pele manchada e seu cabelo desarrumado. Não, ela queria olhar para seu servo espelho, Verax. Ela queria ver Quira — ela não queria mais ser Júlia.
— Minha Senhora…. Este não seria aquele vestido?
— Sua memória é boa Verax…. Sim, é ele mesmo…
Refletida na superfície vítrea do espelho, ela viu sua pele clara, lisa e macia. Seus cachos fartos e escuros. Seus lábios róseos. Toda a sua verdadeira forma dentro daquele vestido preto de renda. O vestido se colava ao tronco e aumentava nos cotovelos e na altura dos joelhos. Quira imaginou colocar um chapéu pontudo e uma pequena máscara nos olhos para ir ao baile. Júlia se encolheu ao pensar o que, na verdade, todos os outros veriam — aquela não era ela — não mais.
Deu um pequeno sorriso melancólico e sentou-se desamparada em frente a penteadeira. Verax sentia a melancolia de sua mestra. Kanna, a gata preta, pulou na mesa. Ela olhou para o espelho, que fez um aceno afirmativo.
— Mestra Quira. Verax e eu achamos uma forma de reverter a maldição… Apenas por uma noite. Vai esgotar nossa magia por um tempo, mas com a minha ajuda, Verax conseguirá trocar as imagens, aprisionando sua forma humana no espelho, no lugar da sua verdadeira forma. É o tempo máximo que conseguimos. A maldição é muito forte. Mas não suportamos mais vê-la assim.
— Voltarei a ser feiticeira? — Júlia, ou talvez Quira, respondeu incrédula.
— Apenas por uma noite.
Então, juntos, Verax e Kanna prenderam Júlia no espelho, fazendo Quira voltar a sua verdadeira forma. Não Júlia, nem Fátima ou qualquer outro nome que usara no passado, durante aqueles quinhentos anos. Ela era Quira, por uma noite apenas.
E pensando que levava Júlia, Gabriel buscou Quira como sua acompanhante. E pensando que via Júlia, notou que havia algo de diferente nela.
Assim como Júlia, Quira queria se divertir e se sentir ela mesma por uma noite. Mas, diferente de Júlia, Quira não tinha medo nem vergonha, e ria sem peso no coração. Com a máscara sobre os olhos e a pouca luz, ela acreditava que ninguém poderia perceber a diferença entre as duas.
Mas Gabriel percebia a diferença, pois não era só física, já que uma boa maquiagem e um bom penteado poderiam, em teoria, ser os responsáveis. Não, era o jeito que ela se mexia. Antes ela exalava medo e vergonha, mas agora estava autoconfiante e extrovertida. Será que ela era mais do que aquilo que ele via todo dia?
Não aguentando a dúvida, Gabriel a puxou pelo braço para fora da pista de dança. “Preciso falar com você”. Quira sentiu suas bochechas corarem. De repente, se sentiu completamente consciente do rapaz. Sem o peso da maldição sob seus ombros, já que Quira nunca a havia carregado – sem Júlia lhe dizendo que sentimentos eram proibidos, Quira sentiu-se livre para sentir o que havia sentido às escondidas.
Ao vê-la lá fora, na luz forte, Gabriel viu que aquela não era Júlia — aquela não era sua amiga tímida e fechada. Se afastou um pouco, fazendo essa contestação em voz alta. “Quem é você?”
Quira sorriu ao perceber como o amigo prestava atenção nela, mesmo sem nunca ter visto seu verdadeiro rosto. Bom, seu coração nunca teria balançado por ele se isso fosse diferente. Ele se importava com a Júlia, e a Júlia fazia parte dela. Talvez ele entendesse.
— Sou eu, a Júlia… Só que do jeito que eu deveria ser… Livre. — Sem pensar nas consequências, tirou a máscara do rosto, mostrando toda a beleza que um dia enfeitiçara diversos homens. Gabriel estendeu a mão para tocar aquele rosto.
Entretanto, não a tocou. Algo lhe incomodava. Por mais louco que parecesse, ele se desapontou com a linda mulher que lhe fazia companhia. Fechou a mão em um punho. Ele queria Júlia ali, sua amiga, para compartilhar aquele momento. Era com Júlia que queria rir. Seu coração se apertou e ele começou a perceber o sentimento que tentou esconder. Preocupação começou a inundar seu pensamento.
— Não sei qual é a sua brincadeira, mas eu não estou rindo não. Onde está a Júlia?
— Estou aqui. Sou eu. — Quira respondeu suavemente, chegando mais perto do rapaz. A voz. A voz era a mesma. E, por mais diferente que ela estivesse, aqueles olhos verdes eram os mesmos — ele conhecia o contorno daquela íris. Era ela. Diferente, sim, mas a mesma pessoa ainda assim. Ele tocou-a no rosto, sentindo a pele de veludo e, como se tivesse sido enfeitiçado, todas as inseguranças que teve sobre seus sentimentos por Júlia se esvaíram. É claro que a amava e, tão claro como o dia, ele sabia que ela o amava de volta.
De repente, sem nenhum dos dois esperar por isso, Gabriel se aproximou de Quira e encostou os lábios nos dela com a maior ternura possível. Ela sorriu. Mas Júlia chorou, gritou e esperneou. Quira tinha se esquecido. Quira tinha arriscado. Quira tinha feito de novo. Júlia a odiou — a odiou como se fosse a odiar para sempre, mas ao mesmo tempo a entendeu, porque naquele pequeno segundo, ela também havia esquecido, enfeitiçada pela proximidade daquele que amava… E, por mais trágico que fosse o destino, ela não pode segurar a alegria que sentiu por ter seu amor correspondido. Mas, cedo demais, aquelas palavras malditas soaram mais uma vez e uma pequena lágrima caiu de seus olhos – agora era tarde demais.
Mulher, aqui está minha maldição – você perderá sua magia e sua beleza, para que assim, não enfeitice mais nenhum homem. E se, apesar de sua repugnância, o seu amor ainda for correspondido, uma doença fatal possuirá todos os seus amados e eles perecerão a seus pés. Esse será seu destino, enquanto minhas palavras soarem em seus ouvidos.