O Pintor sem Tinta

Minha carreira estava arruinada. Minha visão, de repente, não era mais a mesma. Não conseguia mais capturar a beleza como antes eu podia. Eu era um fracasso, um pintor sem tinta.

Eu sempre pensei que somente um fracassado buscaria alguma inspiração na internet. Mas, eu estava desesperado. Não sabia ao certo o que procurava, digitando palavras aleatórias no site de busca. Mas, subitamente, me encontrei em um vídeo-blog, em uma postagem antiga, onde uma menina gastava seu tempo falando sobre coisas que achava bonitas. Uma rosa, uma pintura, a grama, a água, um tecido com certo padrão… uma roupa.

Eu mesmo poderia rir de tudo aquilo. As observações dela eram infantis, quase fúteis. Para o pintor que eu era, aquelas observações eram óbvias demais. Ela não notava sombras, os brilhos, as nuances das cores que nos mostrava. Ela escolhia certo, mas por razões erradas.

Entretanto, para um fracasso como eu, despido de seus instrumentos de observação, um pintor sem senso estético, as observações eram, ainda assim, interessantes. Como as formas se encontravam, como eram delicadas e surreais.

Os vídeos eram constantes. Eram postados com espaçamento de um ou dois dias entre eles. Eu olhava o pequeno calendário do lado esquerdo do blog e ia clicando, dia a dia, vendo cada um dos vídeos com demasiada atenção. Então, de repente, pararam. Senti um desconforto. Não deveria acabar agora. Com certa ansiedade, cliquei no botão de “próximo mês”. E, mesmo assim, nada. Apertei novamente o mesmo botão, e nada, do mesmo jeito.

Será que ela tinha desistido do blog? Nada indiciava isso. Apertei “próximo mês” novamente. Um único post se destacava no final do mês. Ela o tinha intitulado “Reviravoltas”, e a menina, antes de uma beleza quase infantil, havia mudado. Seu rosto possuía uma grande cicatriz branca no olho esquerdo e o seu olhar era nublado.

Ninguém teria a audácia de dizer que o ferimento havia lhe tirado a beleza. Pelo contrário. O ferimento a fizera possuir uma beleza madura, e triste. Se antes sua idade parecia não passar dos dezesseis, agora parecia ter seus vinte e poucos. Sua beleza agora era triste. Seus cabelos escuros caíam compridos ao lado do rosto que estava natural, sem nenhuma pintura para disfarçar-lhe as imperfeições. E este mesmo fato só a fazia mais bela. Uma beleza que doía na alma, pois parecia transmitir como uma onda a sua própria dor.

Ela esboçou um sorriso triste. A cicatriz vincou levemente na bochecha. “Olá, meus espectadores”. Ela deu uma pausa que lhe pareceu agoniante. Ela não sabia como falar. Fez o ensaio de começar uma frase algumas vezes. “Acho que minha própria aparência já lhes responde o motivo de ter estado ausente durante tanto tempo. Sim, eu sofri um grave acidente”. Ela explicava tristemente.

“E esse acidente me tirou uma coisa muito importante… E só percebi como era importante para mim, quando a perdi”. Uma lágrima solitária caiu de seus olhos sem vida. “Eu perdi a visão”. A frase parece ecoar em minha mente. Sei que não podia me comparar a ela, pois sua perda era literal, ela não via nada. Mas eu, como pintor, também não via nada.

“Mas eu não vou desistir deste vídeo-blog… Ele continuará trazendo para vocês a visão de Lara… Só que um pouco diferente”. Ela riu, um riso triste e levemente irônico. Então, o vídeo acabou. Fitei a tela preta por alguns instantes antes de voltar a navegar pelos dias a procura de mais vídeos da mesma garota.

E, por mais impossível que parecesse, os vídeos continuaram. No começo, mais espaçados, meio incertos sobre o que dizer. Ao passar do tempo, começaram a ficar mais constantes, com opiniões mais fortes e observações interessantíssimas.

Coisas que geralmente nunca paramos para pensar. Como o odor da rosa e seu toque aveludado na pele. Como é levemente mais gelada que nossa temperatura. Ela falava de tudo. Da madeira da mesa que se sentava, que possuía um leve odor velho misturado com floresta e como ela era imperfeita perante seus dedos já experientes. Ela falava até mesmo do teclado de seu computador, do cheiro que tinha, das marcações que passou a reconhecer quase instantaneamente e de como, quando enxergava, não havia notado os diversos relevos que possuía. E falava também do barulho que fazia, como era ritmado e hipnotizante. Falava de como o computador era levemente irritante, com sua voz de robô, lendo tudo para ela.

Falava da rua, das pessoas. De tudo que parecia lhe chamar a atenção. Falava dos cadernos, agora inúteis para ela, e dos livros, agora meros papéis. Falava de como começava a entender braile, e como parecia difícil diferenciar cada letra… E depois, como seu corpo foi se acostumando a confiar mais em seus outros sentidos e menos na visão.

Falava até de como cada pessoa andava diferente, cheirava diferente e se portava diferente diante dela. Pude perceber que aquele vídeo-blog era para ela um confidente. Ela contava como algumas pessoas nem ao menos percebiam que era cega, e se espantavam quando percebiam.

Ela contava como imaginava a cidade agora, como tudo era levemente surreal, e ao mesmo tempo, muito mais real do que jamais fora. Agora, tudo lhe era palpável. Tinha que ser. Não sabia enxergar de outro jeito. Contava como compreendia cada vez menos algumas coisas e se entristecia perante todos ao confidenciar: “Estou me esquecendo das cores, dos rostos. Tudo é só um grande borrão negro… com sons, cheiros e texturas”.

Seu último post confidenciou que tentaria dar uma chance à faculdade novamente, com um pouco de ajuda, ela achava que seria capaz. Dizia que a sua faculdade local tinha um ótimo programa para deficientes físicos, e que provavelmente ali seria o melhor lugar para ela. Confidenciou sobre sua vontade de ensinar outros como ela a enxergar e não se desesperar perante a falta de visão. Ela faria pedagogia.

Um vazio tomou parte de mim. Subitamente, tive uma vontade inexplicável de conhecê-la. Onde morava? Onde estudava? Ao procurar levemente, descobri maravilhado que partilhávamos a mesma cidade. Tudo que precisava descobrir era que faculdade tinha programas para deficientes físicos e o curso de pedagogia.

Eu tive sorte. Havia somente um. Um campus bem conhecido meu, dos meus tempos mais jovens, quando havia feito artes plásticas. Sorri. Se nada ocorresse em minha busca errática, pelo menos poderia voltar às raízes e provar um pouco de nostalgia.

Mas ela estava lá. Por destino ou acaso, ela estava lá, como se me esperasse. Devo ter parecido estranho ao me aproximar lentamente dela e nada dizer. Eu a observava. Ela se sentava sozinha em um banco florido do campus, parecendo prestar demasiada atenção ao seu redor, mas sem sequer se mexer.

– Você vai ficar parado aí? Eu não mordo, pode sentar. – A voz, que já me era conhecida, foi dirigida a mim. Senti um leve arrepio de nervosismo. Ela estava ali. Ela era real. Por que eu queria conhecê-la? Por que queria me aproximar dela? Sentei.

— Você estuda aqui? — Ela me perguntou, tentando puxar algum tipo de assunto.

— Estudei algum tempo atrás… — Resmunguei, envergonhado de admitir o motivo pelo qual estava sentado ao seu lado. Eu a analisava arduamente. O cabelo negro, liso e comprido, caindo solto nas costas. Os olhos nublados e cegos. A cicatriz marcando o rosto triste. Ela ainda conservava aquela tristeza no rosto. Ela sorria tristemente. Parecia que nunca seria feliz novamente. Eu mesmo me entristeci.

— E o que você fazia aqui, Estranho? — Ela me perguntou, como se “estranho” fosse meu nome. Ela era tão casual, tão confiante. Era tão adorável…. Como podia ter tido um castigo daquele?

— Fazia Artes Plásticas… — Eu a observei esboçar um sorriso triste.

— Um dia eu quis fazer Artes Plásticas também. Mas, por algum motivo, acho que não me daria muito bem na profissão… — Ela riu do próprio sarcasmo. Não consegui partilhar-lhe o riso. — Não entendeu a piada, Estranho?

Imagino que era seu jeito de lidar com a nova condição. Fiquei triste por ela. Queria lhe ajudar. Queria que ela me ajudasse. Decidi enfrentar o improvável.

— Sabe Lara, eu era um pintor. Talvez não conheça meu nome… mas me chamo Augusto Telbert… Eu fazia algum sucesso antes… mas… eu perdi a minha visão artística. E, de alguma forma… acho que você pode me ajudar a achá-la.

— Telbert. — A expressão de Lara mudou de medo pelas informações que eu tinha, para reconhecimento, e novamente tristeza. — Como acha que eu, uma mulher cega lhe ajudaria com algo assim? — Sua voz era levemente amarga. Eu sabia que a tinha magoado com as minhas palavras. Abaixei a cabeça, levemente arrependido.

— Suas observações sobre o mundo são… maravilhosas. Não sei como vai me ajudar, mas eu tinha essa necessidade de conhecê-la…

— Augusto… — Ela me deu um sorriso gentil. Parecia entender que era tudo verdade. — Eu não me lembro mais das cores, meu amigo. Não lembro o que era vermelho, amarelo. Para mim são palavras. Entendo de sons, de cheiros. Se você fosse músico, talvez até o entendesse. Eu não tenho visão, Augusto. Tenho tato, olfato, audição.

— Eu acho que é exatamente por isso…

— O que você acha de me levar para jantar hoje, Augusto? — Ela sorriu gentil. — Tenho aula agora. Podemos conversar mais tarde.

Minha felicidade era indescritível. E a partir daquele momento, minha amizade com Lara começou. E, com a amizade dela, recobrei minha visão. Retornei a ver como o mundo era belo. E retornei a pintar. Minha maior tristeza era não poder mostrar a Lara, minha musa, todas as pinturas às quais me influenciou.

— O que está pintando hoje, Augusto? — Lara me perguntou ao entrar em meu apartamento certo dia. Ela parecia visivelmente mais feliz do que quando a conhecera. Eu gostava de pensar que era por minha companhia.

— Estou pintando um pôr do sol, enquanto um casal passeia na praia. — Lhe respondi.

— Me fale um pouco do pôr do sol? — Ela pediu ávida. Ela sempre me pedia para descrever as coisas para ela. Eu não tinha muito jeito com as palavras.

— Bom, Lara, esse pôr do sol está levemente manchado de nuvens mais acima, mas elas têm uma coloração levemente violeta, pois misturam o azul do céu com o vermelho, que é a cor do pôr do sol, e todo o céu está dessa cor, num leve degradê, passando por laranja e amarelo… O casal caminha na areia de mãos dadas… mas não podemos ver o rosto deles por causa da luz.

— Não me lembro de como eram as cores… — Ela sussurrou tristemente. Sempre que eu lhe descrevia as coisas, ela tomava aquela feição triste, como se não conseguisse imaginar o que eu lhe dizia. Eu me sentei do seu lado, em meu sofá.

— O vermelho Lara, é como o calor. Representa tudo o que é quente. Como o sol, que nos aquece pela manhã, ou a paixão, que nos aquece por dentro. — Eu olhava para meu próprio quadro, Lara não perceberia se eu estivesse olhando para ela. — Você lembra a sensação do sol em seu rosto? — Ela se limitou a acenar com a cabeça. — Para mim, essa é a sensação do vermelho. Já o amarelo, Lara, o amarelo, me lembra a alegria. Aquela felicidade repentina, um sorriso…. É como rir de uma piada, sabe como? — Ela sorriu para mim.

— E o azul, o azul do céu… Ah, Lara, como é bonito o azul do céu. Mas o azul pode ser triste também. Mas para mim, me lembra da calma, da quietude…. como… como se sentar no parque logo de manhã, sabe, Lara? — Ela parecia sentir a calma em seu próprio ser.

— E o violeta, Lara, é como misturar o calor do verão com a calma do inverno. Me lembra… me lembra você. — A frase foi involuntária. — A alegria e a tristeza, juntas…

— Acho que posso ver, Augusto…

Eu virei para ela, pronto para acreditar que um milagre tinha acontecido. Mas ela estava de olhos fechados, conservando um sorriso no rosto. Depois me olhou, os olhos nublados já conhecidos. Eu sabia que ela queria indicar que prestava muita atenção em mim.

— Através dos seus olhos, Augusto… eu posso ver de novo.

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