Sobre a Arte de ser você mesmo

Sem eu perceber, o TED Talk da Caroline McHugh, “A arte de ser você mesmo” passou a ser uma referência constante na minha vida. A frase que você vê no rodapé do meu site (“Seu trabalho é ser cada vez melhor em ser quem você já é”) veio desse vídeo, e várias outras frases que gosto de pendurar pelo meu local de trabalho também vieram dele.

Não posso negar que sou uma pessoa meio obcecada com a ideia de identidade. Sempre me senti diferente das pessoas e por muito tempo achei que deveria me “diminuir” – ser “menos eu” – para que pudesse ser aceita pelos outros. Muitos anos, traumas e diagnósticos depois, comecei a tentar me desfazer dessas máscaras que construí em busca desse sentimento de pertencimento. O que sobrou foi uma eterna dúvida de quem sou eu e esse vídeo sempre me reconforta e me ajuda a pensar sobre isso.

O vídeo inteiro é perfeito e recomendo muito que o assista, ele é uma versão resumida do livro “Never Not A Lovely Moon”, escrito pela palestrante. 

Intervalos de possibilidade

Existem alguns momentos em nossa vida mais propensos às mudanças – onde elas são mais rápidas ou mais profundas. São aqueles momentos que nos dão a sensação de bifurcações. Você encontra um estranho em um bar, ou seu chefe te oferece um cargo novo. Você sabe que ao aceitar essa mudança, a velocidade da sua vida vai mudar. 

Infelizmente, alguns desses intervalos de possibilidade podem ser catastróficos: você, ou alguém que você ama, adoece, ou você é demitido. Ou algo mais impessoal, como o 11 de setembro, um tsunami ou um terremoto. Independente do que, algo acontece que faz você voltar para o seu eu interior e se perguntar: “Quem sou eu?” – O problema disso é que quando acontece algo catastrófico, você está vulnerável, fraco, e essa pergunta se torna muito mais difícil de responder.

Aproveite para fazer essa pergunta quando você está bem, forte e saudável, um momento em que essa pergunta seja mais fácil – e mais útil – de se responder.

Interioridade

Você já deve estar familiarizado com a ideia de Complexo de Superioridade e Complexo de Inferioridade. Caroline McHugh sugere que levemos a vida a partir do complexo de Interioridade (palavra inventada por ela). Nos primeiros dois complexos, você precisa de uma relação com o outro. Tanto a superioridade quanto a inferioridade tem como base a comparação com o outro, enquanto na interioridade a comparação é com si mesmo.

“Todos nós temos a nossa própria coisa, essa é a mágica: todos vem com seu próprio senso de força e seu próprio reinado.”

Jill Scott

Quando você atinge a interioridade – descobre como ser você mesmo – você vive mais livremente. Você não desenvolve uma identidade baseada em uma personalidade feita de remendos. Você não é um composto de todas as suas experiências e influências. Você não é só o chefe de alguém ou a mãe de alguém, ou nada de ninguém – Você é você mesmo. 

O Complexo do Eu

Mas, quando nos referimos a nós mesmos, podemos estar nos referindo a quatro tipos diferentes de nós mesmos. O complexo do Eu é um modelo para te ajudar a descobrir qual é o “eu” que você se refere quando você diz “eu”. 

Percepção

O “você” mais visível que você representa para o mundo externo: o que os outros pensam de você. E existem tantas opiniões sobre você quanto existem pessoas. Uma das coisas mais debilitantes é o vício por aprovação – a necessidade de gostarem de você ou dizerem que tudo vai ficar bem. Quando falamos sobre ser nós mesmos, necessitar da aprovação de outra pessoa, ou confundir a opinião do outro pela sua, é uma das piores coisas que você poderia fazer na sua jornada para ser você mesmo. Você nunca deixará de ter percepção, mas é muito importante ser livre da percepção.

Persona

A sua persona é o que você gostaria que todos pensassem de você. Tem a ver com movimento, possibilidade, tem a ver com potencial e suposição. Essa é sua personalidade adaptativa, o seu eu construído – e mesmo isso é único, porque ninguém possui as mesmas experiências e influências que você. Mas esse seu “eu” está em constante movimento. Ele muda o tempo todo. A cada ano que passa, seu trabalho é ser cada vez melhor em ser quem você já é. Você já é diferente. Seu trabalho é descobrir como, e daí ser mais daquilo.

Ego

O seu ego é o que você pensa sobre si mesmo. Você tem dias bons e ruins. Tem dias que você acorda se sentindo a última bolacha do pacote, e em outros dias você acorda e não consegue dizer nem o seu nome. Um dia parece que tudo dá certo, que as estrelas se alinharam para fazer do seu dia o melhor possível. E há dias que tudo dá errado, e tudo o que você quer é se esconder em algum buraco. 

Esses dois são os extremos do seu ego: um é sobre autocongratulação e o outro é sobre autopunição. A sua vida inteira tem sido sobre construir uma relação estável com o seu ego. Você precisa dele, mas o desafio é tirá-lo de sua posição dominante e colocá-lo no seu lugar, para que esteja a seu serviço. É aí que ele se torna útil. E para isso acontecer, você precisa encontrar o ponto no meio dos dois extremos – o equilíbrio. É uma espécie de estado de espírito que não pode ser perturbado: é um tipo de confiança similar à do céu. O céu não se parabeniza pelos seus arco-íris, e não se pune pelos dias chuvosos. O céu simplesmente é. Pois ele vê a impermanência das nuvens, e a impermanência do arco-íris. Nós também podemos chamar esse sentimento de equilíbrio de “humildade”.

“Humildade não é pensar menos de si mesmo – humildade é pensar menos em si mesmo.” 

Baronesa Campbell

Self

Esse é o “você” sempre presente e imutável. Na índia, você é criado com a crença de que você é um ser espiritual que, por acaso, está em um corpo físico. Gandhi, ao lhe perguntarem “qual é a sua mensagem para o mundo?” respondeu simplesmente: “Minha vida é minha mensagem”. E a sua vida é a sua mensagem também. Pode não ser tão grandiosa quanto a de Gandhi, mas a sua vida tem que ser sua mensagem. Senão, por que você está aqui? 

Então, quando você pensa sobre a sua identidade, quando você pensa sobre o que significa estar vivo, e por que merece existir, você não é os seus pensamentos, porque você os pensa. E você não pode ser seus sentimentos, porque senão, quem é o “você” que os sente? Você não é o que você tem; você não é o que você faz; você não é nem quem você ama, ou quem ama você. Tem que haver alguma coisa abaixo disso tudo. Para McHugh, esse seria o “Self”.

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