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Esperança olhou o nascer do sol tardio de cima da muralha e suspirou para o novo dia. Vontade ainda era cativa no castelo do desespero e o mundo começava a mostrar os impactos disso. Otimismo se aproximou de mansinho.
— Alguma ideia?
— Não temos mais escolha. Precisamos ir até lá e trazê-la de volta. Desse jeito, não duramos mais nem uma semana. Ah, se tivéssemos mais gente…. Se estivéssemos mais saudáveis. Seria tão fácil. Mas agora, nesse estado… É impossível prever o resultado.
— Mas Persistência vai nos ajudar, não vai?
— Sinceramente? — Esperança suspirou e começou a voltar para dentro da muralha. Otimismo a seguiu. — Não sei. Ela deixou bem claro da última vez que faz o que quiser. É uma nômade. Mas o enfraquecimento da Vontade, o escurecimento do mundo… Tudo isso deve ter afetado até mesmo ela. Vamos ver… Acredito que no último momento ela virá. De qualquer forma, ela nos encontrará onde estivermos. Podemos marchar sem preocupação.
A mulher entrou em um quarto escuro, onde várias camas se alinhavam umas atrás das outras. Tocou no pé de Orgulho — que dormia logo na primeira — para fazê-lo acordar. Olhou com tristeza para aquela sombra de homem que levantou. Mal era possível reconhecer aquela personalidade impositiva que um dia ele fora. Agora era só uma sugestão, uma lembrança. Esperança não queria dizer nada, mas o vodu que Vergonha estava praticando nele com certeza estava fazendo efeito — um efeito incrivelmente preocupante.
— Partimos para o Vale da Angústia em uma hora, meu amigo. — Ela sorriu. Aquele sorriso encorajador que somente a Esperança sabia dar. Orgulho pareceu se estufar, por um segundo voltando a ser seu velho eu, as manchas da Vergonha totalmente apagadas.
Esperança continuou para a segunda cama, voltando-se então para aquela que pertencia à Coragem. Aquela era uma lutadora. Tinha resistido bem os efeitos do Medo até bem pouco tempo atrás. Não fosse o rapto da Vontade, era capaz de estar tão bem quanto sempre fora. Mas, agora, tinha os olhos fundos, os cabelos estavam quebradiços e os músculos — um dia tão bem torneados — nem bem existiam. Esperança suspirou. Ela sentia tanta falta da linda Coragem. Mas sorriu para ela. Sorriu, porque ela era a única que não poderia chorar. A única que não poderia fraquejar — nunca.
Apenas uma vez ela havia deixado acontecer. Havia deixado se afetar. Apenas uma vez as bruxarias da Depressão a tinham atingido e feito-a adoecer. Foram os dias mais negros do mundo. O sol não nascia mais e a noite perdurou por semanas. Todos seus soldados — seus amigos — caídos e fracos. Daquela vez, Vontade tinha sido presumida morta. Esperança sacudiu a cabeça para esquecer do passado. Dessa vez ela não deixaria tudo isso acontecer. Ela tinha um plano e ia resgatar Vontade dos calabouços do Desespero.
Alegria pousou em seu ombro e lhe deu um beijo na bochecha, de bom dia. Agora só tinha dez centímetros e não brilhava tanto quanto podia. Mas ainda sorria, como sempre. Esperança tentou não pensar que se a Alegria estava assim, a Tristeza deveria estar do tamanho de um titã. Não tinha propósito pensar dessa forma. Sorriu para a amiga, que pareceu crescer alguns centímetros e brilhar um pouco mais.
— Coragem, Alegria, vamos marchar para o Vale da Angústia em uma hora. Estejam prontas. Vamos resgatar Vontade.
A pequena mulher, que mais parecia uma fada, olhou para a outra, deitada na cama, e deu-lhe um olhar incerto. Entretanto, recebeu em troca um olhar de garra e certeza. Espelhou o mesmo em seus olhos e confirmou para Esperança com um aceno de cabeça — elas estariam prontas.
Uma hora depois, Esperança — montada em seu alazão branco — esperava, junto à Otimismo, fora da fortaleza. Orgulho, Coragem e Alegria se apressaram a se juntar a sua comandante. Os dois primeiros com seus próprios cavalos, a terceira em voo próprio. Esperança chamou Alegria para seu ombro e liderou a comitiva em frente.
O Castelo do Desespero era uma fortaleza impenetrável que ficava dentro do Vale da Angústia. Era impossível descer os cânions íngremes sem arriscar uma queda prematura. Mas existia um simples fato que todos tendiam a ignorar: os soldados tinham que descer de alguma forma.
Ao longe, Esperança ouviu aquele assobio característico que lhe inflamou os ânimos: era ela, Persistência. O grupo cavalgou a seu encontro, avistando-a esperando em frente a uma fenda íngreme, que descia o penhasco.
— Você encontrou a entrada. — Esperança balbuciou perplexa. Persistência simplesmente concordou com um aceno de cabeça.
— Depois de você.
Quando enfim alcançaram as pedras úmidas da fortaleza, uma pequena porta lhes convidava a entrar. Esperança podia sentir nos ossos que Vontade estava cada vez mais perto: logo no final daquele corredor escuro. Entretanto, aquele gelo em seu coração dizia que Depressão também estaria lá. O embate seria perigoso.
O grupo chegou no calabouço iluminado por tochas, mas ninguém estava à vista. Esperança sentia o corpo gelado, mas os ossos pareciam vibrar. Eles estavam muito perto. Persistência chamou a comandante com um toque, para mostrar o caminho que havia achado entre as celas. Mais à frente era possível ver a sombra do titã Tristeza. Esperança fez um aceno com a cabeça e prosseguiu, sentindo os outros atrás de si. Seus ossos berravam.
— Esperança?
Aquela voz…. Sim, era ela. Assim como sempre fora, mas enclausurada. Todo o corpo de Esperança gritava de alegria pelo encontro. O coração gelado e a informação de que Depressão estava poucos passos à frente não podia mais abalá-la. Ela esticou a mão, passou o braço pela grade e pegou na mão da amiga. As duas começaram a brilhar — a ressoar — juntas.
— Não! — O grito obscuro veio do outro lado da sala. — Medo, Vergonha, façam alguma coisa!
Os dois guerreiros, de armadura completa, pareciam emanar uma aura escura. Orgulho e Coragem vieram a frente, parecendo apenas crianças desnutridas em face dos guerreiros sombrios. Mas algo começou a acontecer. Medo e Vergonha começaram a vazar e diminuir. Orgulho e Coragem começaram a crescer e inchar.
Os quatro puxaram as espadas das bainhas e se enfrentaram. No início, os sombrios pareciam ter mais técnica e mais força, mas os invasores estavam ficando cada vez melhores. Do fundo do aposento, um titã se aproximou da luta. As mãos monstruosas tinham o objetivo de pegar os agressores. Alegria e Otimismo vieram em defesa dos amigos. Otimismo desembainhou a espada e mirou-a no centro da mão esquerda, que vinha em sua direção. Alegria, com seus 30 centímetros, empurrou com toda a força que conseguiu a outra — a direita. A mão fechou ao redor dela.
Depressão deu uma risada maligna que ressoou por todo o recinto.
— É inútil, Esperança. Vou acabar com todos eles. E a última será você!